Amor da Pátria, mas não Movido de Prémio Vil

antunesLuisa Marinho Antunes > Este ano, ano letivo de 2013-2014, é um ano glorioso. Aliás, todos os nonos anos de escolaridade de qualquer ano do calendário são gloriosos. Este é-o especialmente para mim, porque o meu filho, finalmente, vai ter a oportunidade de ler na escola, na companhia de jovens varões assinalados desta ocidental praia lusitana, as palavras inspiradas de amor pátrio de Luís Vaz de Camões. E ainda tem como bónus as falas das personagens de Gil Vicente, que espelham o mundo tal como é, este em que vivemos, feito de alcoviteiras, usurários, gentes de falas vãs que pretendem comprar o paraíso movidos por prémio vil.

Somos uma nação estranha. Uma nação que confunde. Somos o povo que inspirou a poesia épica de Camões, uma poesia cheia de fôlego, grandiosa, comovente e ao mesmo tempo o povo que mais a trai, em conteúdo e em espírito. Parecemos um conjuntozinho de alcoviteiras, usurários, falsos sacerdotes a ler sobre guerreiros, reis, navegadores, homens de espírito. Talvez o único que possa compreender as palavras tocantes de Camões em Os Lusíadas seja O Parvo de Vicente, aquele que na sua inocência ainda acredita em memórias gloriosas, em ir para além da força humana, em engenho e arte, no orgulho da “Lusitana antiga liberdade”.

Somos uma nação estranha, porque, enquanto em países como a Itália o ator Roberto Benigni, o do filme A Vida É Bela, vem à televisão em pleno Festival da Canção de San Remo ler e interpretar o hino nacional e ocupa vários programas em horário nobre a ler O Inferno, de Dante, explicando cada verso, nós esquecemo-nos de Os Lusíadas e a obra fica ali, encaixada, entre o oitavo e o décimo ano. Da beleza e da emoção de “Cessem do sábio Grego e do Troiano/ As navegações grandes que fizeram;/ Cale-se de Alexandro e Trajano/ A fama das vitórias que tiveram;/ Que eu canto o peito ilustre Lusitano./ A quem Neptuno e Marte obedeceram./ Cesse tudo o que a Musa antiga canta,/ Que outro valor mais alto se alevanta.” Tivesse o Benigni estes versos para declamar e enchia as praças italianas por vários verões consecutivos, como o fez com O Inferno.

A verdade é que nos esquecemos que o célebre romancista Alessandro Manzoni afirmou que só Camões tinha conseguido escrever um grande poema épico depois de Virgílio, com a sua Eneida. E que depois de Os Lusíadas seria impossível conseguir escrever algo semelhante.

Pode qualquer um de nós ser infiel à sua identidade nacional depois de lembrado desse som alto e sublimado, desse estilo grandíloquo e corrente, desse espírito de amor inflamado de Camões? Os Lusíadas devia ser lido alto por todos os portugueses, mais alto ainda do que o hino, que acaba com a missão suicida de marchar contra os canhões (dizem que eram os bretões na versão original, sempre seria menos perigoso do que marchar contra canhões, porque o impacto com estes deve ser bem mais violento). Devia ser lido sem preocupação com as metáforas, hipérboles, sinédoques, etc., devia ser lido no alto das montanhas, frente ao mar, no barco para Porto Santo, para as Desertas, com a comitiva que foi às Selvagens. Devia ser gritado com a força plena dos pulmões, devia levar-nos às lágrimas.

Deve haver leitores a torcer o nariz, a boca, porque me deu para lamechices nacionais. Mas, em tempos de praxes académicas, em que os hinos que se cantam têm como sujeito coisas que não posso referir, porque a minha mãe deu-me uma educação de menina bem comportada; em época de eleições e troikas e baldrocas, de discursos muitas vezes ao nível das canções das praxes e bem mais perigosos; numa era em que a palavra não tem engenho, nem arte e muito menos responsabilidade e espírito ético, tenho de lembrar as memórias gloriosas e o orgulho de ser delas herdeira.

Eu compreendo que à pergunta feita a D. Sebastião “julgareis qual é o mais excelente,/ Se ser do mundo Rei, se de tal gente”, a tentação seja ser do mundo Rei, porque tal gente já há muito anda perdida pelos lados da barca do Diabo, e só queremos ser portugueses de verdade quando a seleção mete golo. Culpa nossa, porque não ensinamos de pequeninos aos nossos filhos as vitórias tamanhas, “Que excedem as sonhadas, fabulosas”, e ficamos com o Velho do Restelo a resmungar, enquanto os outros vão à Índia e ocupam a Ilha dos Amores.

Culpa nossa, este esquecimento do espírito lusíada, agora envergonhado, raquítico e cético, porque quem nos governa, quem nos guia e ilumina esqueceu o “pregão do ninho meu paterno” e só quer o prémio vil. Culpa nossa, porque não lhes exigimos que declamem com coração as primeiras estrofes de Os Lusíadas. Sem comoção, o melhor é irem servir interesses estrangeiros e entreterem-se noutros Olimpos. Resta esperar que num futuro próximo os jovens do nono ano se emocionem com o facto de serem portugueses e comecem a acreditar que Portugal é capaz de ir mais longe. Pronto. Tenho dito e não prometo ser esta a última vez em que escrevo “Afeiçoada à gente Lusitana”, como Vénus, mas ela era mais bonita e mais ousada do que eu, claro.

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